Mundo na Janela

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Dona Naninha e a tradição do Amor Perfeito

Por Renato Barros em 07.04.2019.

Poucos lugares permitem uma aproximação tão direta com os saberes e fazeres de uma comunidade como Natividade (Tocantins). Surgida com a atividade mineradora no século 18, a cidade se desenvolveu com a pecuária no século seguinte, mantendo até hoje muitas tradições.

Em meio ao seu casario bem preservado, a um dos ângulos da praça principal, encontra-se a casa e o estabelecimento de Ana Benedita de Cerqueira e Silva, conhecida como Dona Naninha (ou “Tia Naninha”).

Nascida em 1938 nesse mesmo prédio, ela é um dos tantos motivos de orgulho do estado do Tocantins, e integra o patrimônio imaterial de Natividade. A partir de uma receita aprendida com sua mãe (que certamente herdara de gerações anteriores), ela fabrica ali mesmo, com a ajuda do marido, Seu Teodoro, toda uma variedade de biscoitos, com destaque para o chamado “amor perfeito”.

Em formato de coroa, o biscoito tem um sabor muito especial, e é produzido artesanalmente em fornos como os usados pelos antepassados de Naninha (abaixo, à esquerda). A primeira coisa que a gente se pergunta é se esse formato teria a ver com uma festa tradicional da cidade, a Festa do Divino, em que aquele que a patrocina é coroado Imperador, em evento solene.

Outra coisa que chama a atenção, além do sabor e do formato do biscoito (abaixo, à direita), é o seu nome: amor perfeito. Conversando com Dona Naninha e Seu Teodoro, casados há 60 anos e cujo amor a gente percebe só de olhar, encontramos uma pista: para o amor dar certo na vida, há uma mistura de vários ingredientes, cada um na quantidade certa e acrescentado no devido momento, cuidando sempre para não errar na medida.

“É isso que dá a liga, a união”, afirma Naninha, sem deixar claro se está se referindo ao sentimento ou ao biscoito. Na verdade, nem precisamos lhe perguntar, pois a gente percebe logo: quando ela fala, com seu jeito simples e indizivelmente acolhedor, ela não parece distinguir uma e outra coisa, pois o ser e fazer, para ela, estão totalmente interligados.

Talvez isso devesse ser algo comum na vida de todos, mas, nos dias de hoje, parece rara exceção, e assim Dona Naninha nos dá a impressão de ter saído de uma fábula. E tudo o que desejamos é continuar ali na presença dela, ouvindo sobre suas habilidades culinárias e suas histórias (uma das que mais gosta de contar é sobre a infância, quando seus pais a faziam atravessar um rio em um “bragantim”, espécie de caixa feita de couro de boi).

Estar com Dona Naninha é uma lição que você leva para onde quer que vá, e faz você desejar que a vida seja sempre como o momento em que esteve ali, naquele casarão cheio de histórias (abaixo). Seu Teodoro, por sua vez, acentua ainda mais essa impressão com sua sabedoria, e me conta, antes de eu me despedir, sobre sua percepção, aos 92 anos, sobre o sentido de estar no mundo: “A riqueza da vida está na diferença”.

Anote aí: este é mais um segredo da receita.

Para mais histórias como esta, confira aqui.

2 Replies to “Dona Naninha e a tradição do Amor Perfeito”

  • Beleza de narrativa, casa perfeitamente com pessoas,paisagem e fotos e desperta em mim a vontade de conferir

    • Obrigado, Aloísio! Sim, Dona Naninha merece uma demorada visita, assim como a cidade histórica onde ela vive (e da qual curiosamente pouco se ouve falar). Natividade é uma cidade onde você sempre descobre histórias interessantes, basta puxar conversa com os moradores locais. Quando estive visitando a Igreja Matriz, por exemplo, o sacristão veio me contar sobre algumas lendas e histórias da cidade, foi um bate-papo instigante. As pessoas da cidade são muito atenciosas, parecem valorizar as tradições culturais, e tornam esse sítio histórico ainda mais especial. Recomendo muito a visita!

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