Mundo na Janela

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Natividade, a joia do Tocantins

Por Renato Barros em 11.04.2019.

As cidades históricas brasileiras são tão surpreendentes quanto variadas, mas ainda é preciso que se faça justiça a um destino do qual pouco se ouve falar, muito embora possua todos os motivos para ser visitado: trata-se da pequena e charmosa Natividade, uma joia bem guardada no interior do Tocantins.

Localizada a pouco mais de 200 km de Palmas (a capital do estado), Natividade é um lugar imperdível para os amantes do patrimônio histórico e das tradições populares. Com uma arquitetura bem preservada e muito peculiar (abaixo), que combina simplicidade e elegância, ela convida os visitantes a desfrutar de um cenário único, enquadrado pelo verde da Serra Geral.

Natividade: a joia do Tocantins

A primeira coisa que o visitante atento se dará conta, nestas paragens, é a relatividade do que costuma entender por “realidade”. Em outras palavras, é como se ele estivesse entrando em um território onde vida real e fantasia parecem se misturar, como a cidade fictícia de Macondo do escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor do romance Cem anos de solidão.

Tal comparação com Macondo não é mesmo por acaso, e se confirma na primeira visita do dia: a oficina do Mestre Wal, uma ourivesaria onde se produz a filigrana, tradição portuguesa (e também de influência árabe) que diz respeito a confeccionar joias em fios de ouro ou prata (abaixo, ao centro).

Além da beleza das peças, cada uma tem um significado próprio, transmitido por gerações, como a “flor de maracujá”, a “teta de moça”, os “olhos de Santa Luzia” e o “coração de Natividade” (abaixo, à direita). Entre muitos outros, também destaca-se a “peixa” (abaixo, à esquerda), um dos modelos mais tradicionais do catálogo, e que remete a García Marquez pelo fato de o autor fazer referência a um pingente com este formato no referido romance.

Um cotidiano onde lenda e realidade dão as mãos

Uma explicação para a atividade da filigrana se deve certamente fato de Natividade ter surgido com a atividade mineradora, no século 18. Para quem quiser mergulhar ainda mais nessa história, é possível fazer trilhas pelas montanhas que guardam a cidade, pois lá se encontram ruínas da mesma época, todas de pedra.

O local guarda também outra surpresa, porém muito mais improvável: ali, naquela mesma montanha, existe um lago onde, reza a lenda, uma serpente teria proibido a população de se banhar. De acordo com a tradição popular, o réptil mora ali mesmo, embaixo do espelho d’água. Ou melhor: seu rabo repousa nesse lago, enquanto seu corpo se estende pelos subterrâneos da cidade e sua cabeça se encontra sob a igreja matriz.

A ameaça, portanto, reside exatamente aí: no dia em que a serpente gigantesca despertar, toda a cidade irá ruir. Essa lenda, presente em outras cidades brasileiras e também mencionada por Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, parece ter suas origens em Portugal, na chamada Lenda da cobra de Óbidos.

Os habitantes de Natividade, porém, parecem levar a história um pouco mais adiante, ao misturarem ficção e realidade. Ainda hoje, às quintas-feiras, as mulheres locais se dirigem à Igreja de Nossa Senhora de Natividade (nome que homenageia o nascimento da santa) para rezar um terço a fim de que a cobra não desperte e que a cidade seja poupada: as orações das moradoras, a propósito, são dirigidas à Imaculada Conceição, cuja imagem é representada exatamente pela virgem esmagando um réptil.

Personagens da vida real

Além de lendas e tradições curiosas como estas, Natividade encanta com a presença de muitos outros personagens que igualmente remetem a esse universo de fábula.

Além de aproveitar a beleza de sua arquitetura colonial de simplicidade acolhedora, ou das ruínas da Igreja do Rosário (abaixo e ao final do post), o visitante pode ainda se dirigir a encontros emocionantes, como as obras de Dona Romana (cujas visões são transformadas em impressionantes esculturas feitas de vários materiais) ou as saborosas receitas de Dona Naninha, patrimônio imaterial do estado do Tocantins.

Natividade é, em suma, um lugar onde seus habitantes parecem reconhecer os motivos que unem a comunidade, conectados com as gerações que vieram antes e fizeram desse lugar algo tão especial: uma terra do “ver para crer”, e que só consegue ser apreendida por meio de um contato direto, sensorial, pois mesmo envolvendo tantas histórias faladas ou escritas, palavra alguma consegue pintá-la.

E se pudesse, talvez iríamos dizer que, afinal, a cidade é como uma das delicadas joias em filigrana produzidas em seu terreno, e que leva seu nome: guarde-a em seu coração, e só compartilhe o tesouro quando tiver certeza de ter encontrado quem verdadeiramente o mereça.

A propósito: como é mesmo aquela velha citação?
Lembremos: “Onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração”.

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