Mundo na Janela

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Rota da Fé: conhecendo o sertão do Ceará

Por Renato Barros em 07.05.2019.

Já imaginou viajar de Fortaleza a Canindé, no interior cearense, conhecendo paisagens pouco usuais permeadas de museus, prédios históricos, igrejas e uma propriedade rural ligada a um nome famoso da literatura nacional?

Apesar do título, a “Rota da Fé” de que trata este post ainda não existe em termos oficiais como destino turístico: de um modo ou de outro, o certo é que ela pode perfeitamente ser desbravada por qualquer um que queira conhecer o Ceará além das praias e atrações mais divulgadas de sua vibrante capital.

Como todos os destinos ainda pouco conhecidos, você vai descobrir que este aqui também guarda suas surpresas…

Primeira parada: o Casarão de Água Verde

Deixando Fortaleza pela CE-060, o primeiro ponto a chamar a atenção na estrada é o Casarão de Água Verde (acima), a pouco mais de 50 km da capital. Localizado em cima de um pequeno morro e construído em estilo renascentista italiano, ele intriga os viajantes com suas arcadas e múltiplas janelas. O cenário parece ter saído de um conto gótico, inspirando muitas histórias sobrenaturais.

Apesar da atmosfera assustadora, o prédio não é tão antigo quanto parece, tendo sido construído provavelmente na década de 1960. Mesmo assim, ele certamente integra o patrimônio afetivo não só da comunidade de Água Verde, como também de todos os viajantes que passam por ali e se sentem instigados a visitá-lo, guardando suas formas para sempre na memória (por conta das más condições de conservação, entretanto, não se recomenda a visita ao interior da edificação).

Redenção: nos passos da liberdade

Seguindo pela CE-060, você vai passar logo adiante por Redenção. Antigo distrito de Acarape, o local ficou conhecido como o primeiro local do Brasil a assinar a abolição dos escravos, antecipando-se à Lei Áurea.

Sua principal atração, não à toa, é o Museu Senzala Negro Liberto (acima), localizado em uma propriedade do século 19 onde ainda hoje se produz aguardente (da marca “Douradinha”). O conjunto é formado por casa-grande, senzala, moageira, loja (o “Mercado da Sinhá”) e canavial.

Itans: conhecendo a História do Ceará

Seguindo ainda pela CE-060, você vai chegar ao município de Itapiúna, terra rica em minérios como o quartzo rosa. Em uma bifurcação da rodovia, a poucos metros da saída da cidade, uma estrada de chão leva ao distrito de Itans, com sua recém-restaurada Igreja da Nossa Senhora da Conceição (acima).

Remontando ao período colonial brasileiro, a história oficial de Itans (ligada inicialmente à Vila do Aquiraz) começa com uma doação de sesmaria em 1753, e evoca momentos decisivos da história cearense.

De acordo com Francisco Andrade Barroso no livro Igrejas do Ceará, o lugar foi o local onde ocorreu a prisão de Antônio Bezerra de Souza Menezes, Comandante das Armas da Confederação do Equador, no ano de 1824, quando ele tentava alcançar seu chefe Tristão Gonçalves (que se encontrava no Vale do Jaguaribe).

Além de ter testemunhado todo esse contexto histórico e considerada a segunda igreja mais antiga do Ceará (a primeira é a Matriz de Aquiraz), a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itans tem ainda outras surpresas, como a imagem original de sua padroeira (do século 18) e as pinturas do forro do altar-mor, constituindo uma parte importante do patrimônio do Ceará.

A Fazenda Não Me Deixes: o refúgio de Rachel de Queiroz

De volta à CE-060 e seguindo novamente nela, na direção sul, você vai passar pelo povoado de Daniel de Queiroz (já no município de Quixadá), a partir do qual é possível pegar um desvio até a Fazenda Não Me Deixes (acima), onde viveu a escritora Rachel de Queiroz, primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras.

No refúgio da escritora (que dividia-se entre o Rio de Janeiro e a Fazenda, aonde acorria sempre que tinha notícia das chuvas), é possível ter uma ideia da atmosfera do lugar que a inspirou de tantas maneiras. Móveis, objetos pessoais, utensílios domésticos, tudo parece nos transmitir a ideia de que, de algum modo, ela ainda está ali, cercada de seus afetos e da paisagem marcante do semiárido.

A paisagem inesperada de Quixadá

Conhecida como “Terra dos Monólitos”, a cidade de Quixadá (ainda na CE-060) causa um estranhamento imediato: à proporção que você se aproxima da cidade, gigantescos blocos rochosos brotam surpreendentemente na paisagem, com formatos inusitados como a Pedra da Galinha Choca (acima), cartão-postal do lugar. Não deixe de visitar o Açude do Cedro (acima), construído ainda na época do Império: a partir de seu imponente paredão, você terá a melhor vista do curioso rochedo.

Canindé, destino final do roteiro

Retomando o caminho da CE-060 em direção à Itapiúna, é preciso tomar a CE-456, que liga Quixadá a Canindé (cerca de 100 km separam as duas cidades). Canindé é o destino final da Rota da Fé. Recebendo milhões de peregrinos e viajantes de todo o país, a cidade gravita em torno da devoção a seu padroeiro, São Francisco das Chagas, a quem dedicou sua imponente basílica (acima).

Não perca a Casa Marreiro, uma loja tradicional de objetos de couro curtido como quase já não existe mais, bem como a Casa dos Milagres, que reúne uma coleção emocionante de ex-votos. Ela certamente irá lembrá-lo de que Canindé vai te conectar a algo muito maior, independentemente de sua crença, nesta rota traçada muito antes de você, por tantos outros peregrinos.

Para conhecer outros lugares como esses, confira aqui.

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